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NÊGO, SIM!
por: Jorge Carvalhais

Há cerca de umas semanas atrás  tive o privilégio de visitar três comunidades de afro-descendentes chamadas de "terras quilombolas”.  Durante a. vigência da escravatura  no Brasil, os negros conseguiram  organizar-se em áreas de resistência  ao domínio dos seus senhores. Quando os escravos, vindos de África, conseguiam fugir ou por alguma  razão conseguiam a liberdade - a  alforria - agrupavam-se em regiões  onde, organizados com índios, mestiços e muitos brancos que defendiam a causa da abolição, lutavam contra origem esclavagista vigente. Esses agrupamentos de resistência negra ficaram conhecidos como quilombos ou moçambos e, alguns, foram abrigo para mais de um milhar de indivíduos. Havia-os, também, que não eram tão numerosos e até nem tinham localização fixa. Muitos desses quilombos subsistiram mesmo depois da abolição da escravatura e foram locais de experimentação de um colectivismo negro. Outros, mercê das dificuldades que a população negra  continuou a sentir após a abolição,  desagregaram-se, tendo as terras  sido tomadas por fazendeiros que, sob a aparência da legalidade, aproveitaram para explorar a mão-de-obra de ascendência afro.
Actualmente, as áreas remanescentes desses refúgios negros sobrevivem como locais de preservação da cultura de "preto" e dos ideais sociais que os afro-descendentes  sempre defenderam.



Desafortunadamente parece  que uma espécie de estigma faz  com que as populações quilombolas  vejam perpetuadas violências que  mais parecem localizadas nos primórdios da colonização europeia.  Duas das comunidades que visitei - Bom Sucesso dos Pretos e Saco das Almas - estão a ser alvo da especulação fundiária do agro-negócio. Na primeira dessas comunidades, uma empresa de alumínio denominada Margusa, apossou-se de ; vasta área no entorno do antigo quimlombo. Agora, naquelas matas, pêra o eucalipto, plantado para servir na combustão dos fornos da fábrica, com impressionantes danos para o ecossistema: o riacho onde a população costumava ir buscar água para consumo domiciliário, hoje não tem;  caudal suficiente na época seca. Na outra comunidade, Saco das almas, um vazio legal permitiu que os descendentes das antigas famílias de senhores de escravos vendessem  as terras para os mono cultores da soja. A comunidade de afro-descendentes vê-se, hoje, a braços com uma situação irónica: a terra foi declarada área quilombola pelo governo, mas a área cultivável não está disponível para as necessidades dos camponeses negros.

Como esperança, resta o exemplo de uma outra área quilombola, onde o querer da população e a cooperação das autoridades está a fazer nascer um local de preservação da memória histórica.

Em Santa Cruz, um projecto, bem estruturado, está a restaurar tanto a velha casa de engenho como antiga senzala. Ao recriar a história, desafia-se a população afro-descendente a preservar a lembrança da resistência negra e ensinam-se as novas gerações a terem atitudes de tolerância. Assim, evitam-se os erros do passado e, naturalmente, surgirão como me aconteceu -  muitas crianças negras que, honrando com orgulho a riqueza das suas tradições, afirmam abertamente: "nego, sim!".

 

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